O que é a dor?

As Pessoas com doença oncológica não querem falar sobre a dor. Pensam que é um aspeto menor, podendo causar distração do que é importante: o tratamento do cancro. Também temem ser consideradas “doentes difíceis”. Outras pensam que a dor implica um avançar da doença oncológica.

Quando a dor oncológica não é adequadamente aliviada e tratada, a Pessoa pode sentir-se cansada, deprimida, preocupada, isolada ou estressada. No entanto, quando adequadamente controlada, pode desfrutar das atividades do dia-a-dia, dormir melhor, ter mais vontade em comer, desfrutar melhor do seu tempo com a família, de uma vida sexual plena e evitar a depressão.

A dor é um fenómeno complexo com várias dimensões: sensitiva, cognitiva, emocional e comportamental. É difícil definir a dor, pois é individual e subjetiva: todos têm os mesmos mecanismos fisiológicos contudo, cada Pessoa sente a dor de forma diferente.

A dimensão sensitiva está relacionada com a sensação física, ou seja, a forma como descreve a dor: localização, intensidade e descrição dador (p. ex. “picadela”, “queimadura”, “facada”, “moedeira”). A dimensão cognitiva está relacionada com as crenças, as atitudes espirituais e culturais, e corresponde à forma como se gere, se interpreta, se dá um determinado sentido em lidar e viver com a dor. A dimensão emocional está relacionada com o que sente emocionalmente (p. ex. “é desagradável”, “é doloroso”, “é preocupante”, “é intolerável”). A dimensão comportamental é a forma como a Pessoa reage à dor, como a expressa através do corpo e do discurso (p. ex. a posição corporal, a face, o choro, ou o grito). Estas quatro dimensões da dor são inseparáveis.

Numa primeira abordagem, a dor deve ser investigada por um médico. Para descobrir a causa da dor, o médico precisa de saber o que sente. Não existe uma regra geral e cada Pessoa é um caso único. A dor pode ter uma origem e pode ser explicada. Em muitas situações, é tratada e aliviada. É inútil e até mesmo perigoso “sofrer em silêncio”.

O tratamento deste sintoma tem feito progressos consideráveis nos últimos anos. É fundamental verbalizar as queixas dolorosas. A equipe de saúde que lhe presta cuidados tem os meios necessários para o ajudar a controlar a dor e a melhorar a sua qualidade de vida.

A dor aguda é um sinal de alarme e de defesa em determinadas situações. Está presente por tempo limitado, e normalmente tem uma causa conhecida. Quando resolvida a causa, a dor desaparece (por ex. a dor pós operatória ou a dor pós traumática).

A dor crónica, por outro lado, é prolongada no tempo e está mais frequentemente associada a uma doença, um problema. Apresenta características no que concerne à sua definição: duração de pelo menos 3 meses, apesar do tratamento; persistência do sintoma mesmo quando a causa foi resolvida; e difícil de entender porque a causa nem sempre é visível.

  • A dor aumenta, diminui de intensidade, desaparece e reaparece, e nem sempre sabemos a razão; é física e emocionalmente esgotante. A dor crónica não desempenha um papel de alarme, é uma doença por si só. As flutuações da intensidade da dor não refletem o percurso da doença oncológica.
  • É fundamental saber, descrever e explicar a dor que sente. A Pessoa com dor tem um papel central na avaliação e tratamento e é o melhor juiz de sua própria dor levando os médicos e enfermeiros a encontrar os tratamentos mais adequados. A descrição da dor ajuda o médico a fazer um diagnostico da condição dolorosa. Os profissionais precisam de uma descrição com a maior precisão possível. Utilizar palavras claras, simples e objetivas são aspetos fundamentais para a construção da história da dor.
  • Como descrever e explicar este sintoma:
  • Onde é a dor? (Identificar as localizações do corpo onde sente a dor: Está presente numa única área ou em várias partes do corpo? É uma dor difusa ou localizada?);
  • Há quanto tempo se iniciou? Como se manifesta a dor ao longo do dia? Como apareceu? De repente ou gradualmente?
  • Como carateriza a dor? Descrição das características (p. ex. “tipo penetrante”, “sensação de queimadura”, “tipo facada”, “sensação de formigueiro”, “moedeira”, “tipo cólica”, “sensação de cão a ferrar”);
  • Como classifica a intensidade da dor? É ligeira, moderada, intensa ou máxima. Os enfermeiros e médicos utilizam instrumentos para ajudar a avaliar a intensidade da dor, como por exemplo, a Escala numérica de 0 a 10 ou a Escala das faces;
  • O que agrava a dor? (p. ex. caminhar, arrumar a casa, o exercício físico);
  • O que alivia a dor? (p. ex. o calor, a massagem);
  • Que impacto tem a dor nas atividades de vida diárias (p. ex. no sono, no apetite, no autocuidado) e no quotidiano?
  • Que impacto tem na qualidade de vida?
  • Que impacto tem no humor e estado de espírito?
  • Como a dor afeta as relações e a vida social?
  • Qual a medicação em curso e a medicação experimentada? (Quais são os analgésicos? Durante quanto tempo foram tomados? Qual o alívio obtido? Quais os efeitos adversos?);
  • Foram ensaiadas terapias complementares? (por ex. acupuntura, massagem, fisioterapia, outras).

Esta descrição deve ser efetuada tendo em conta a “dor basal”, ou seja, a dor que de certa forma está sempre presente, bem como a descrição das exacerbações da dor, ou seja a “dor irruptiva”. A “dor irruptiva” é uma crise de dor moderada a intensa em pacientes com dor de base persistente mas controlada.

Sempre que possível, a intensidade da dor deve ser quantificada para um tratamento mais individualizado e ajustado. Para tal, existem vários instrumentos de avaliação, sendo os mais utilizados:

  • Escala Visual Analógica que consiste numa linha horizontal, ou vertical, com 10 centímetros de comprimento (varia de 0 à 10), que tem assinalada numa extremidade a classificação “Sem Dor” e, na outra, a classificação “Dor Máxima”. Deve fazer uma cruz, ou um traço perpendicular à linha, no ponto que representa a intensidade da sua dor. Há, por isso, uma equivalência entre a intensidade da Dor e a posição assinalada na linha reta. Mede-se, posteriormente em centímetros, a distância entre o início da linha, que corresponde a zero e o local assinalado, obtendo-se, assim, uma classificação numérica entre 0 e 10, sendo que 0 corresponde a “sem dor” e 10 a “dor máxima”.

    Escala Visual Analógica
  • Escala Numérica que consiste numa régua dividida em onze partes iguais, numeradas sucessivamente de 0 a 10. Esta régua pode apresentar-se na horizontal ou na vertical. Pretende-se que faça a equivalência entre a intensidade da sua Dor e uma classificação numérica, sendo que a 0 corresponde a classificação “Sem Dor” e a 10 a classificação “Dor Máxima”.

    Escala Numérica
  • Escala Qualitativa: solicita-se que classifique a intensidade da sua Dor de acordo com os seguintes adjetivos: “Sem Dor”, “Dor Ligeira”, “Dor Moderada”, “Dor Intensa” ou “Dor Máxima”.

    Escala Qualitativa
  • Escala de Faces: é solicitado que classifique a intensidade da sua dor de acordo com a mímica representada em cada face desenhada, sendo que à expressão de felicidade corresponde a classificação “Sem Dor” e à expressão de máxima tristeza, corresponde a classificação “Dor Máxima”.

    Escala Faces

Definir um diário da dor (p. ex. à semelhança do diário das tensões arteriais ou do guia do diabético) registando regularmente a intensidade, as características e os aspetos relacionados com a sua dor, é uma estratégia útil no controlo da dor.

Resumindo…

A dor é um sintoma subjetivo, sendo a sua descrição somente possível pela Pessoa que a sente. A avaliação é um passo essencial para o controlo deste sintoma, permitindo que o doente, os cuidadores, bem como os profissionais de saúde, em conjunto, possam definir o tratamento ajustado às reais necessidades e características da dor. “É inútil sofrer em silêncio!”

Raposo, Carina; Santos, Juliana; Ribeiro, Ana Leonor; Correia, Isabel; Freitas, Manuel Jorge; Santos, Célia; Oliveira, Miguel; Bidarra, Andrea (2015). Entender a dor Oncológica - Informação de apoio para doentes : AEOP - Associação Enfermagem Oncológica Portuguesa

NOTA : A informação constante desta página é exclusivamente de caráter educacional, para adultos, não pretendendo substituir de nenhum modo o aconselhamento com profissionais de saúde devidamente habilitados.